Texto escrito por Leandro Augusto Saldanha de Azevedo aluno da disciplina Introdução ao Estudo do Design – ministrada pelo Prof. Rodrigo N. Boufleur – Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Bacharelado em Design.
Introdução
Ao adentrarmos o universo do estudo do Design, um dos nomes com o qual teremos mais contato é o da escola de design alemã Bauhaus. Formada na cidade alemã de Weimar em 1919, a escola, apesar do seu curto período de funcionamento, tornou-se um paradigma no ensino do design do século 20 (CARDOSO), e no presente artigo buscaremos investigar o sentimento que habitava as paredes da Bauhaus e o seu legado para se pensar o design hoje.
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Fonte: https://www.curbed.com/2019/4/9/18296923/bauhaus-100-design-legacy-art-furniture-craft
Uma breve história da Bauhaus
O início do século XX na Europa foi marcado pela efervescência de diversos movimentos de vanguarda nas artes e no design, nesse contexto, é formada na Alemanha, mais especificamente na cidade de Weimar, a escola Bauhaus. Fruto da unificação e reorganização de duas escolas já existentes, a academia de belas-artes e a escola de artes e ofícios de Weimar, dirigida pelo jovem arquiteto Walter Gropius, a criação da Bauhaus não teria sido possível fora do clima conturbado da Alemanha no período de 1918-1919. No início de 1919 ocorreu a criação de uma nova república federal, com a capital na pequena cidade de Weimar, longe dos tumultos de Berlim. Nessa confusão o governo provisório aceita a proposta de Gropius para reformulação do ensino artístico público. A Bauhaus surge então no centro desses acontecimentos políticos, e sua existência é influenciada por eles, sendo a própria escola vista como motivo de polarização até o seu fechamento em 1933, com a chegada do poder do partido nazista. (CARDOSO)
O espírito da Bauhaus
A Bauhaus tornou-se um ponto de encontro de muitas das ideias e personalidades dos movimentos artísticos e de design europeu durante o período do seu funcionamento (HESKETT). Foi essa capacidade de reunir um grande número de pessoas muito criativas e muito diferentes em uma única escola que deu vida e força para a Bauhaus, transformando essa pequena instituição em um foco mundial para o fazer artístico (CARDOSO). Essa grande confluência de pensamentos e personalidades proporcionava uma significativa confusão artística para a instituição, longe de dogmas e de uma hegemonia estilística, confusão essa que era buscada pelo próprio fundador, Walter Gropius: (BERGHAUSEN)
“o objetivo da Bauhaus não é um estilo, um sistema, um dogma ou um cânon, uma receita ou uma moda. a escola vai viver enquanto ela não depender da forma, mas continuar buscando atrás da forma cambiável o fluido da própria vida” disse Gropius.
Essa diversidade também pode ser percebida pela fala do pintor Josef Albers:
“Não havia consenso sobre nada. Se Wassily Kandinsky dissesse sim, eu dizia não. Se ele dissesse não, eu dizia sim.”
Porém, essa variedade de ideias e personalidades também trabalhou contra sua sobrevivência institucional, tanto pelos choques entre personalidades fortes, mas também pelo confronto com as tendências xenofóbicas da época. (CARDOSO)
“Para a maioria dos que participaram, o significado maior da escola esteve na possibilidade de fazer uso da arquitetura e do design para construir uma sociedade melhor, mais livre, mais justa e plenamente internacional, sem os conflitos de nacionalidade e raça que então dominavam o cenário político” (CARDOSO)
O contexto político-social da Alemanha provocou grande influência no espírito da Bauhaus, partindo do objetivo do seu fundador, de ligar diversas disciplinas de artes e artesanatos para criar um design de baixo custo e rápido, para proporcionar o consumo do bom design na Alemanha dizimada após primeira guerra (BERGHAUSEN).

Fonte:http://tallerdeencuentros.blogspot.com/2010/05/escuelas-revolucionarias-la-bauhaus.html?m=1
Legado da Bauhaus
Ao estudarmos a Bauhaus e o espirito criativo que habitava a escola, conseguimos compreender melhor o seu legado para o Design hoje. Cardoso aponta que o legado da Bauhaus não necessariamente condiz com o pensamento dos seus alunos durante o período de existência da escola:
“… com o final da Segunda Guerra Mundial e a derrota do eixo fascista, o mundo mudou muito e a memória da Bauhaus foi assumindo um caráter bastante distinto daquele promovido pelos seus integrantes” (CARDOSO)
Se a vontade dos integrantes da Bauhaus era o uso do Design para construir uma sociedade mais justa, longe do sentimento de intolerância que estava em efervescência na época, podemos dizer que o aspecto aproveitado futuramente pelo campo do estudo do design foi bem mais pragmático. A Bauhaus acabou contribuindo para cristalização de uma estética e estilo próprio para o design, o chamado ‘alto’ modernismo, baseado no Funcionalismo.
Algumas regras estéticas e de estilos acabaram por se tornarem muito marcadas nos admiradores da Bauhaus, contrariando o espirito de confluência de diversos estilos diferentes, longe de dogmas e regras, que fazia parte do pensamento da Bauhaus, principalmente durante os primeiros anos de sua existência.
“O legado mais irônico da Bauhaus, considerando-se a enorme diversidade de opiniões que ali vigorou, é a tendência de muitos dos seus seguidores a prescrever normas e regras para o design. “ (CARDOSO)
Porém, o aspecto mais relevante do legado da Bauhaus foi para o estudo do design, seu significado educacional foi importantíssimo. A metodologia de estudo aplicada pela Bauhaus passou a ser utilizada em instituições por todo o mundo.
Conclusão
Nesse humilde artigo é dado um simples panorama geral sobre os aspectos abordados, tratar mais a fundo sobre essa importante instituição e seu legado para o design hoje é uma tarefa árdua e não pouco buscada por estudantes de design do mundo todo.
Como conclusão proponho uma reflexão ao leitor, se possível tente se imaginar nos corredores da Bauhaus, nas suas oficinas, nas conversas com artistas de toda Europa, proponho ainda que tente imaginar o espirito que permeava o aspecto político e social da Alemanha no período, e como essa tão importante escola teve uma importância nítida de resistência a uma ideologia nefasta que se alastrava pelo continente europeu. Talvez esse seja o maior legado que a Bauhaus tenha nos proporcionado, e novamente os ventos da história parecem nos trazer dias nefastos pela frente, que surjam novas Bauhaus, e que o design e a arte sejam instrumentos de resistência.
Referências bibliográficas:
Arte e Indústria no Início do Séc. XX – Heskett (1998)
MEGGS, Philip B.; PURVIS, Alston W.; Hitória do Design Gráfico, 2009 – Brasil, Cosac & Naify, 14 de agosto de 2009.
CARDOSO, Rafael Denis; Uma Introdução à História do Design, 2000 – São Paulo, Edgard Bluthcer, 2000
https://www.goethe.de/ins/br/pt/kul/fok/bau/21356319.html – Nadine Berghausen