Bauhaus e Design – Trajetória

Texto por Déborah M. Ramos, Design, Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

“Não resta dúvida, porém, de que em menos de quinze anos de funcionamento, a Bauhaus conseguiu se transformar em principal paradigma do ensino do design no século 20.” (CARDOSO; RAFAEL, 2000, p. 130)

Para começarmos a falar da importância revolucionária da Bauhaus no contexto de artes, arquitetura e design, é necessário antes de tudo entender sua origem e trajetória, sua importância política e o símbolo ideológico que carregou durante sua vida em uma Alemanha conflituosa, até ser fechada em 1933 pelo governo nazista.

Escola Bauhaus, Dessau

História

A Staatliches Bauhaus (Casa de Construção Estatal) foi uma escola de artes, arquitetura e design fundada em 1919 a partir da junção e reorganização de duas escolas existentes na cidade alemã de Weimar, a Academia de Belas-artes e a Escola de Artes e Ofícios.
O arquiteto Walter Gropius foi o primeiro a assumir a direção da academia. Gropius foi um dos principais nomes da arquitetura no século XX, uma figura bastante associada ao modernismo da arquitetura alemã e às tendências coletivistas do Conselho dos Trabalhadores para a Arte (Arbeitsrat für Kunst).
O nascimento da Bauhaus se deu em um cenário conturbado da Alemanha no período pós Primeira Guerra Mundial, entre 1918 e 1919, e é possível especular que não teria sido possível sua fundação fora dos conflitos existentes no contexto em que se encontrava o país. Motins, greves e a renúncia do então Kaiser marcaram a época, enquanto a nação sentia a morte de mais de dois milhões de alemães perdidos na guerra. Toda essa situação culminou na formação de uma nova república federal, em 1919, com capital federativa estabelecida justamente em Weimar, cidade já conhecida por sua tradição literária e distante da tumultuosa Berlim.
Foi no auge de toda essa confusão que foi aceita pelo governo estadual provisório a proposta de Gropius para a reorganização do ensino artístico público. A Bauhaus teve sua formação dada no centro de discussões políticas, e assim permaneceu como símbolo ideológico até ser fechada por Hitler em 1933 sob acusação de ser um “reduto comunista”.

“Seria injusto pensar as atividades da escola e dos seus integrantes fora do contexto tumultuado da Alemanha entre as guerras, um período marcado pela exacerbação contínua de conflitos de importância visceral para a evolução material e espiritual do século 20” (CARDOSO; RAFAEL, 2000, p. 134)

A escola foi sempre, de certo modo, comandada por algum ideário socialista. Passou por três diretores (Gropius, Hannes Meyes e Mies van der Rohe) e durante sua trajetória mudou sua sede de cidade algumas vezes, passando por Weimar, Dessau e Berlim. Grande motivo de tantas mudanças foi justamente as discordâncias políticas entre os ideais que a escola carregava e a autoridade regional que financiava a academia. A Bauhaus tentou ainda estabelecer parcerias no mundo industrial, afim de emancipação dos cofres públicos, mas não obteve muito sucesso de forma geral.

Walter Gropius, 1920

Metodologia

Nos primeiros anos de vida da Bauhaus, Gropius em sua direção (1919-1928) esteve sempre preocupado em atrair pessoas de diferentes tendências e com visões inovadoras, fator que ajudou a atrair figuras ligadas à arte e arquitetura de diversos locais da Europa.
O corpo docente multidisciplinar da escola foi composto por grandes renomes, bem como Wassily Kandinsky e Paul Klee, dois dos principais pintores da época. Ademais, haviam acadêmicos em áreas de pintura, design, arquitetura, fotografia, escultura, literatura, além de combinações intermediárias entre todos esses nichos, proporcionando uma verdadeira variedade metodológica de filosofias e crenças dentro da academia.

“Mais do que qualquer outro elemento, foi essa capacidade ímpar de reunir um grande número de pessoas muito criativas e muito diferentes em uma única escola que deu vida e força para a Bauhaus, transformando essa pequena instituição em um foco mundial para o fazer artístico.” (CARDOSO; RAFAEL, 2000, p. 133)

Pedagogicamente, a Bauhaus percorreu caminhos sinuosos, com constantes mudanças no corpo docente, de cursos e enfoques. Segundo Rafael Cardoso, no livro Uma Introdução à História do Design, essas fases pedagógicas costumam ser divididas de acordo com a ascendência individual de cada professor, por exemplo, expressionismo e misticismo de Gropius e Itten, o tecnicismo e o estilo racionalista de Moholy-Nagy e Meyer, ou a fase de Mies van der Rohe, onde o ensino da arquitetura foi veementemente priorizado, quase exclusivamente, como aponta o autor.
O ensino na escola circundou a exploração de uma única atividade ou material dentro de oficinas. Aconteceram aulas de cerâmica, metal, tecelagem, mobiliário, vitrais, pintura mural, pintura de cavalete, escultura e talha, encadernação, impressão gráfica, teatro, arquitetura, design de interiores, publicidade e fotografia. Havia ainda um curso preliminar, que buscava unificar essa gama de assuntos, transmitindo fundamentos sobre a forma e a cor.

Oficina na Escola Bauhaus

Bauhaus e Design

A maior contribuição pedagógica de Gropius e da própria Bauhaus ao que tange design, talvez tenha sido a disseminação da ideia de que o design devesse ser pensado como uma atividade unificada e global, se desenvolvendo em diversas vertentes, mas ao fim tendo como principal objetivo atender e estudar os múltiplos aspectos da atividade humana.
A ideia em questão surgiu inicialmente do movimento Arts and Crafts, uma visão que se é possível classificar como romântica do fazer arte. A Bauhaus, por sua vez, foi se distanciando, durante seu desenrolar, dessa visão utópica e se adequou a um modelo menos grandioso do ensino do design. A academia chega ainda a receber o subtítulo de Escola Superior de Design (Hochschule für Gestaltung) em seus últimos anos de funcionamento.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, com a derrota do eixo fascista, o mundo estava em um grande período de mudança, o que fez com que a memória da escola assumisse uma forma distinta do que havia sido idealizado por aqueles que fizeram parte da academia. Eles relatavam que o maior significado esteve em poder fazer arquitetura e design com o objetivo de construir uma sociedade melhor, mais livre, mais justa e plenamente internacional, sem conflitos de nacionalidade ou raça. Em contraste a isso, na prática, a Bauhaus acabou por contribuir, como aponta o estudioso Rafael Cardoso, para a cristalização do chamado “alto” Modernismo, que tinha como principal preceito o Funcionalismo – a ideia de que a forma ideal de qualquer objeto deve ser determinada de acordo com sua função.
Dentro desse desdobramento, designers posteriores admiradores do estilo Bauhaus acabaram por aplicar fórmulas prontas em seus projetos, sem buscarem entender os processos que deram origem a tais soluções.

Formas básicas e cores primárias. Funcionalismo.

Um outro ponto de convergência com os ideias anteriores da academia foi a contribuição de uma relação antagonista entre designers e artistas e artesãos. Prevaleceu-se a ideia de afastar o design do campo das artes e aproximá-lo de questões científicas e objetividades técnicas.
A Bauhaus, por fim, perdeu-se em determinado momento da história de seus ideais originais, mas ainda representa um dos maiores e mais significativos marcos na história do design. A metodologia aplicada permitiu uma ascendência considerável na área e galgou os primeiros passos em seu desenvolvimento. É uma história que merece ser contada e resgatada, é um objeto de estudo de extrema importância para o designer dos dias de hoje.

Referências Bibliográficas:

CARDOSO, Rafael Denis; Uma Introdução à História do Design, 2000 – São Paulo, Edgard Bluthcer, 2000.

Texto desenvolvido por Déborah Cristina Cavalcante Martins Ramos para a disciplina Introdução ao Estudo do Design – Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Departamento de Artes – Bacharelado em Design – Novembro de 2019. O texto colabora com o projeto de extensão “Blog Estudos sobre Design”, coordenado pelo Prof. Rodrigo N. Boufleur.

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