Texto produzido por Júlia Cordeiro do Vale, discente do curso de Design da UFRN
O artista, arquiteto e designer alemão Peter Behrens desempenhou papel importante ao planejar um curso de design na primeira década do novo século. Ele buscava a reforma tipográfica, foi o primeiro defensor da tipografia sem serifas e usou um sistema de grids para estruturar o espaço em seus leiautes. Foi chamado de “o primeiro designer industrial” em reconhecimento aos seus projetos para produtos industrializados […] Seu trabalho para a Allgemeine Elektrizitats-Gesellschaft, ou AEG é considerado o primeiro programa completo de identidade visual. Em arquitetura, seus primeiros edifícios foram pioneiros no uso das cortinas de vidro não estruturais. (MEGGS, 2009, pg 298)

Peter Behrens, como citado, foi um importante nome para a modernidade do século 20, suas influências foram diversas e incontestáveis em inúmeros campos criativos, como na arquitetura e design, além de ter exercido nítida influência no que viria a ser um dos maiores centros de ensino do design e da arquitetura, a famosa Bauhaus, por exemplo. Behrens, aparentava estar sempre “à frente” do seu tempo, e isso fica cada vez mais nítido quando se olha sua história e seus projetos, comparando-os com seu contexto histórico, pois foram feitos que foram se desenvolvendo num período de mudança sócio-cultural afinal, agora iniciava-se uma nova fase histórica com a chegada da Era Moderna, partindo de vanguardas, e sendo cada vez mais aprimorada, até se chocar com o período das grandes guerras, e passar por um novo ponto decisivo em seu desenvolvimento.
O alemão Peter Behrens, nascido em Hamburgo, estudou na Kunstgewerbeschule em Hamburgo, a notável Escola de Belas Artes alemã e posteriormente mudou-se para Munique em meados de 1897 – período no qual iniciava-se o renascimento das artes e ofícios alemães, nessa época Behrens atuava como artista, e apesar das suas primeiras pinturas terem sido baseadas na paisagem industrial e na pobreza, coisas que eram comuns na época, ele acabou sendo influenciado por esse renascimento, mudando seu estilo de arte, que agora não possuía mais um cunho realista e social, agora era uma arte que seguia os conceitos da Jugendstil.[1]
Em 1900 o grão-duque de Hessen, que procurava “fundir a arte com a vida”, estabeleceu uma nova colônia de artistas em Darmstadt, na esperança de estimular o crescimento na indústria [..] Os sete artistas da colônia, incluindo Behrens e o arquiteto Olbrich, da Secessão Vienense, tinham experiência nas artes aplicadas. […] Behrens projetou sua própria casa e todo o mobiliário, desde os móveis até os talheres e a porcelana, uma experiência importante em design total. (MEGGS, 2009, pg 298)
Nesse período, muitos dos críticos de arte alemã, estavam interessados em entender e relacionar as várias formas de arte e design e suas condições sociais, culturais, e técnicas, e dentre os interessados, encontrava-se Behrens, que afirmava que a arquitetura e a tipografia eram os cunhos que forneciam um retrato mais fiel de um período, sendo estes vistos como um testemunho do que ocorria na época, dos processos de transformações culturais, sociais e espirituais, acerca do desenvolvimento das pessoas daquele período. Por dar tanta importância para a tipografia, Behrens foi um dos primeiros entusiastas a buscar a criação e implementação de um tipografia não serifada, com um visual mais limpo e universal, em contrapartida da letra gótica utilizada na época, e aos floreios que acabaram sendo implementados em algumas tipografias devido ao surgimento da Art Nouveau. Behrens chegou até a publicar um livreto em 1900 todo feito com tipografia não serifada criada por ele.
Além desse interesse comum no período, existia também uma necessidade de buscar inovações e mudanças, afinal a virada do século se aproximava e com ela, vinha a exigência por parte da comunidade alemã de arte e design de buscar por novas formas para uma nova era. “A reforma tipográfica era um dos principais interesses de Behrens.” (MEGGS, 2009, pg 300). E então em 1907, Behrens foi nomeado o conselheiro artístico da AEG, pelo Emil Rathenau.
Depois que Rathenau adquiriu direitos de fabricação para patentes de Thomas A. Edson, em 1883, a firma se tornou uma das maiores empresas do mundo. Rathenau foi um industrial visionário que procurou unificar visualmente produtos, ambientes e comunicações da companhia. Em 1907 a indústria elétrica era de ponta. (MEGGS, 2009, pg 302)
Com essa nomeação, Behrens entrou em um dos períodos mais marcantes de sua carreira, afinal suas inúmeras contribuições para a AEG foram o alicerce e serviram como base para o que viria a ser o design caracterizado como o design do século XX e que seria amadurecido com o decorrer das décadas. Nesse cargo, Behrens preocupou-se com as necessidades da indústria, com trabalhos que variavam sempre, desde grandes edifícios, à construção de pequenos ventiladores elétricos, e seu trabalho para a empresa, demonstrava uma forte tendência à padronização e simplificação dos produtos, ele trouxe consigo também, resquícios da sua carreira inicial de pintor em conjunto com sua experiência e abordagem estrutural do arquiteto para o design de produto, logo é assumível que tudo isso permitiu com que Peter Behrens conseguisse alcançar de certa forma uma “excelência” em seus produtos, feito que posteriormente rendeu-lhe o título de “primeiro designer industrial”.
Em 1908, Behrens registrou seu projeto de marca para a AEG, uma logo hexagonal, no formato de um favo de mel simplificado, que possuía as iniciais da empresa elétrica, vale ressaltar que a escolha do favo de mel estilizado não foi “aleatória” a AEG era uma grande indústria corporativa e se formos analisar, o funcionamento de uma colmeia é bem parecido com o funcionamento e a organização de uma grande corporação, essa conotação foi adotada no século XX com o surgimento de grandes empresas corporativas. Além da marca, Behrens também criou a identidade visual completa para a empresa, com uma tipografia exclusiva para a AEG[2]. E temos então o primeiro projeto completo de identidade visual para uma empresa, que seguia as pretensões de Rathenau, e de Behrens, nesse programa de identidade visual, eram utilizados três elementos centrais, uma marca, uma tipografia exclusiva, e um leiaute consistente e padronizado, com isso a AEG se diferenciava das outras empresas e de suas respectivas comunicações, por ser algo mais “simples” e geométrico, acabava tornando-se algo mais universal, seus usos coerentes proporcionavam à AEG uma nova imagem, uma imagem unificada.

Esse histórico projeto, que proporcionou a introdução do design industrial pela primeira vez de forma completa, tratava-se de um design completo corporativo, que ia além dos projetos arquitetônicos de Behrens para a AEG – como seu projeto para a Fábrica de Turbinas, onde basicamente todas as vinte e duas vigas mestras ficavam aparentes nas laterais da fachada em conjunto com “cortinas” de vidro, que sintetizava a cara do novo design industrial, onde não buscariam mais esconder o que seriam as formas da indústria e sim assumi-las e valoriza-las, onde a forma era determinada pela função – esse design tratava as construções, os aparelhos elétricos, e os logotipos da empresa, como um só, trazendo uma unidade característica para a empresa.
Tendo isso em vista, é de se imaginar que Behrens possuía uma equipe de trabalho, e não realizava tudo isso sozinho, e no meio dessa equipe de aprendizes, encontravam-se nomes como Le Corbusier, Adolf Meyer, e dois do que viriam a ser os diretores do maior marco da história do Design no campo educacional: a famosa Bauhaus, um deles Walter Gropius, o fundador da escola, e Mies van Der Rohe, um dos diretores posteriores. Nesse momento o foco será no fundador da escola, afinal muitas das ideias que deram origem à Bauhaus, surgiram e foram cultivadas durante o contato de Walter Gropius com Peter Behrens.
Walter Gropius (1883-1969) foi o fundador da maior e mais importante escola de design e arquitetura do século XX, a famosa Bauhaus. Sua fundação, em 1919, pode ser tida como o fruto das ideias e dos conhecimentos que Gropius adquiriu durante seu contato com Behrens, que como já evidenciado aqui, foi um dos maiores percussores do design e movimento moderno do século XX. O contato de Gropius com Behrens data de antes de sua participação como aprendiz no escritório de arquitetura do mesmo, ela remonta basicamente desde que Behrens, em 1903 se mudou para Dusseldorf, e se tornou diretor da Escola de Artes e Ofícios de lá, com o novo cargo Behrens introduziu os cursos prévios de disciplinas específicas – artes gráficas, projeto de interiores e arquitetura – esses cursos preparatórios eram inovadores, e com eles Behrens buscava reaver os princípios básicos intelectuais de todo o tipo de trabalho, fazendo com que tais princípios fundamentais se enraizassem nos artistas e em suas expressões espontâneas, que se tornasse algo interiorizado do próprio aluno, algo natural, para isso, “Os alunos desenhavam e pintavam formas naturais em diferentes meios, depois faziam estudos analíticos para explorar o movimento e o desenho lineares e a estrutura geométrica” (MEGGS, 2009, pg 301). Foi então que a partir desse curso os aprendizes dele, Gropius e Mies van der Rohe, se basearam no Curso Preliminar da Bauhaus, o Vorkus.

Nos primeiros anos da Bauhaus, resultava-se a união de arte e da técnica. A base da estrutura educacional era o Vorkus ou curso preliminar, criado por Johannes Itten […] Ele enfatizava o aprendizado pela prática. Com base em estudos teóricos, o trabalho prático explorava e combinava forma, cor, material e textura. Depois havia o treinamento em oficinas […] onde o método básico do Vorkus era aplicado. (HESKET, 1980, pg 103)
O Vorkus, assim como o curso preliminar de Behrens, buscava voltar aos princípios fundamentais ao trabalhar com elementos básicos, para praticar e expor expressões únicas feitas à partir de poucos elementos, esse curso foi basicamente a base da Bauhaus, e um de seus maiores legados. A Bauhaus em si, surgiu no meio de um clima caótico na Alemanha, e muito provavelmente ela n teria surgido se não fosse todo esse caos da época de 1918-1919, ela não teria sido aceita pelo governo de Weimar na época, como uma instituição pública. Por se encontrar no meio desse turbilhão de coisas, e no período pós primeira guerra, a escola de design e arquitetura, possuía um cunho político no meio de tudo isso, e sua permanência, se deu devido à essa polarização ideológica da época, e isso perdurou até que a escola foi fechada pelo partido nazista em 1933.
Além do curso preparatório, vale lembrar que o conceito de forma determinada pela função, muito utilizado por Behrens, também virou um dos principais lemas da Bauhaus. A composição da Bauhaus, buscava a simplicidade e uma versão mais “limpa” de seus elementos, regularmente voltada para a geometrização e uma organização visual “universal”, algo que remonta se formos analisar com afinco, aos conceitos de Behrens – novamente – desenvolvidos a partir da implementação de uma teoria de grids, criada pelo arquiteto holandês J. L. Mathieu Lauweriks (1864-1932), “seus grids partiam de um quadrado que circunscreve um círculo; inúmeras permutações podiam ser feitas pela subdivisão e duplicação dessa estrutura básica” (MEGGS, 2009, pg 302), e foi com a aplicação e utilização dessa teoria por Behrens, que a arquitetura e o design do século XX, foram levados de forma catalisadora, para a utilização racional da geometria na organização visual fundamental, de qualquer projeto gráfico. Apesar da Bauhaus não necessariamente utilizar-se do grid de forma direta, essa ideia de padronização, e buscar sempre a forma elementar (geometrização) para seus trabalhos, tanto gráficos, quanto projetos de arquitetura ou produtos, foram o que deram uma certa personalidade única para a Bauhaus. Vale citar, para concluir que a utilização de tipografias sem serifas (tal busca foi basicamente iniciada por Behrens) também era algo recorrente na escola.
Assim sendo, e levando em consideração que
apesar de enigmática e talvez até “superestimada” a Bauhaus teve um papel de
extrema importância para o campo educacional do Design, muitas outras escolas
posteriores adquiriram seus métodos educacionais, apesar de não marcar a
produção do design, a Bauhaus marcou o seu ensino, e esse ensino e suas
filosofias, foram em grande parte inicialmente desenvolvidas devido ao contato
de seus diretores com grandes personalidades da época, como Peter Behrens. Não
é algo certo, mas já imaginou o que teria sido da Bauhaus caso Behrens não
existisse, ou simplesmente não tivesse sido um dos principais nomes à abrir as
portas do design moderno para o mundo? É algo para se refletir, talvez a escola
não tivesse mudado em nada, e fosse a mesma, mas muito provavelmente boa parte
de suas concepções iniciais seriam deveras um pouco diferentes, o que apesar de
parecer pequeno, resultaria numa mudança grande para o que hoje entendemos como
a própria Bauhaus, e com isso, novamente ressalto que Behrens possuiu grandes
nomes como aprendizes, e levando em consideração que todos eles se tornaram
figuras importantes para o campo, deve-se levar em consideração, que foi no
escritório de Behrens, que provavelmente grandes ideias e filosofias foram
certamente catalisadoras das ideias futuras.
[1]Jugendstil foi o nome que o movimento da Art Noveau, recebeu ao ser adotada na Alemanha. A Art Noveau, começou em meados de 1890 e perdurou até 1920, era um estilo artístico que abrangia as artes aplicadas, decorativas, o design, o campo dos mobiliários, tipografia, e etc. Acabou sendo considerado como um estilo ornamental que era utilizado na arquitetura, pinturas, designs, visualmente caracterizado pelo uso de linhas longas, e fluídas com ondulações, normalmente assimétricas, apesar de seus esforços para manter como “primórdio do movimento” seus conceitos, acabou sendo mais reconhecida e lembrada como uma “estética decorativa”. O movimento inglês Arts and Crafts (artes e ofícios) encabeçado pelo inglês William Morris (1834-1896), encontra-se nas origens do Art Noveau.
[2] Behrens projetou um tipo exclusivo para a companhia, com letras no estilo romano e simples, que no início eram feitas à mão todas as letras displays, e posteriormente, foram fabricadas pela Fundição Klings, a fonte foi nomeada como Behrens Antiqua, e começou sendo algo de uso exclusivo da AEG, e posteriormente, foi aberto ao público.
Fontes Bibliográficas:
MEGGS, Philip B.; PURVIS, Alston W.; Hitória do Design Gráfico, 2009 – Brasil, Cosac & Naify, 14 de agosto de 2009.
HESKETT, John; Industrial Design: World of Art; 1980 – Universidade de Minessota, Oxford University Press, 1980
CARDOSO, Rafael Denis; Uma Introdução à História do Design, 2000 – São Paulo, Edgard Bluthcer, 2000.
Texto desenvolvido por Júlia Cordeiro do Vale, para a disciplina de Introdução ao Estudo do Design – Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Departamento de Artes – Bacharelado em Design – Novembro, 2019.
O Texto colabora com o projeto de extensão “Blog Estudos sobre Design” coordenado pelo Prof. Rodrigo N. Boufleur (http://estudossobredesign.blogspot.com)