“As vanguardas para o design”, por Eduardo Santos
Este é um texto informativo sobre vanguardas, baseado nas citações do livro de Cardoso, capítulo “O vanguardismo europeu e a Bauhaus”. O termo ‘vanguarda’ vem do francês avant-garde, que significa “guarda avançada”, ou a parte frontal de um exército, esse termo é usado para definir os setores pioneiros em um determinado movimento, seja ele social, político, científico, artístico, etc. Na arte, a vanguarda seria basicamente um movimento que produz a ruptura de modelos preestabelecidos, criando e estabelecendo novos tipos de arte e trazendo à tona novos artistas. Sabendo disso, Cardoso aborda em seu texto uma Europa moderna, que se porta durante a Belle Époque (entre o final do século XIX e início do século XX), e que começou mais ou menos com o fim da guerra Franco-Prussiana (Um conflito entre o Império Francês e o Reino da Prússia) e durou, em volta, até a Primeira Guerra Mundial. Esse período foi e ainda é considerado como uma época de ouro e cheia de invenções modernas que tornavam a vida naquele tempo mais fácil.
Foi também nessa mesma época que a arte tomava novas formas com o Impressionismo e a Art Nouveau. A partir disso, Cardoso cita em seu livro que: “Mesmo dentro desse estilo (Art Nouveau), existia uma tensão entre duas soluções formais mais ou menos distintas. A primeira defendia o uso de formas orgânicas, extraídas da representação realista ou convencional da natureza. A segunda promovia a geometrização das formas, caminhando cada vez mais em direção ao uso de motivos abstratos e/ou lineares”. (Cardoso, 2008, pg. 126)
Foram duas tendências que evoluíram conforme a inserção tecnologia, das máquinas e da indústria na vida cotidiana das pessoas. Segundo o próprio Cardoso explica em seus livros, essas soluções buscavam, respectivamente, harmonizar ou naturalizar a máquina através de formas estilizadas, buscando moldá-las em relação às pessoas, torná-las, de alguma forma, mais “humanas” e comuns à sociedade. Já no segundo, era o oposto, tentavam moldar o mundo e as pessoas em relação às máquinas, cedendo ao uso, por exemplo, de formas euclidianas. Duas vertentes que, futuramente, iriam convergir, mais ou menos durante as primeiras décadas do século 20, e com o surgimento de algumas vanguardas.
“Essas autoproclamadas vanguardas (Futurismo, Cubismo, Construtivismo e Neoplasticismo) iriam se alinhar de maneira militante do lado da máquina como ideal estético e parâmetro para a produção/reprodução artística. Contudo, se as crônicas da arte moderna tendem a enfatizar rixas e desavenças entre os integrantes dos diversos ‘ismos’ (ou das diversas vanguardas), do ponto de vista do design, seu impacto foi mais ou menos uniforme”. (Cardoso, 2008, pg. 127)



Foi onde surgiu uma geração que começaria a descobrir e aprender com a tecnologia, indústria e, consequentemente, com o design, acarretando novos padrões para organização de suas atividades. Aqui foi quando também surgiu a ideia do automóvel como “novo símbolo do belo absoluto”. A partir disso começou uma nova evolução através do design, mas que não era apenas dos automóveis, era também de várias outras vertentes industriais, como utensílios domésticos ou pessoais, e foi, provavelmente, onde o design em si teve mais força para aflorar como uma verdadeira área.
Os ideais motivadores que os grupos vanguardistas tinham eram os mais diversos possíveis, como diz Cardoso em seu livro: “desde a Teosofia até o Marxismo-Leninismo ortodoxo”, e por isso foram também as mais variadas estratégias usadas por artistas e grupos. Com isso, ele tende a explicar um pouco sobre o impacto dessas vanguardas no design com a seguinte citação:
“Do ponto de vista do seu impacto no design, é interessante notar que os principais movimentos vanguardistas tenham abraçado como valores estéticos: as máquinas e os objetos industrializados, a abstração formal e a geometria euclidiana, a ordem matemática e a racionalidade, a síntese das formas e a economia na configuração, a otimização e racionalização dos materiais e do trabalho”. (Cardoso, 2008, pg. 127)
Era uma visão que ia ao contrário do ideal romântico do século 19, onde na época se usava a natureza como a obra prima, como o mais elevado fator estético a ser explorado e tinha um ideal muito mais baseado em racionalismo científico. Para eles que que entendiam a indústria e a tecnologia, era ideal a utilização de formas que se identificassem com o progresso industrial da época. Foram séculos de resistência, entretanto, ao avanço industrial, já que se achava repugnante e horrível essa sociedade industrial (sensibilidade artística) até que a máquina fosse vista, não mais como algo que precisava ser escondido, mas como fundamentos para uma nova estética. E ao fazerem isso, os movimentos vanguardistas davam certa importância e prestígio ao industrialismo, que antes não se tinha.
Como já dito, o impacto das vanguardas a respeito do design foi bastante desigual, isso se dá ao fato de que poucos artistas de vanguardas executaram, de fato, projetos relacionados a produtos. Foi um pequeno aproveitamento industrial em relação aos artistas e designers, a não ser por alguns poucos artigos de luxo. E, segundo Cardoso, talvez apenas as indústrias de móveis tenham sido a maior exceção à essa afirmação, e complementa:
“Diversos arquitetos e designers ligados a primeira fase do movimento modernista se notabilizaram na execução de projetos de cadeiras e outros móveis, valendo citar, entre tantos, o trabalho de Alvar Aalto, Gerrit Rietveld, Le Corbusier, Ludwig Mies van der Rohe, Marcel Breuer e Wilhelm Wagenfeld, todos responsáveis pela criação de peças que se tornaram os ‘clássicos’ do design do século 20”. (Cardoso, 2008, pg. 128)
Saindo um pouco da questão das vanguardas e entrando numa questão mais materialista, na época, a aplicação era feita com materiais industrializados, como aço tubular cromado – mais tarde utilizada também para fogões – e também o uso da madeira prensada, uma vez que eram materiais baratos e isso tornava os produtos com uma qualidade e preço bem acessível para a grande massa de consumidores, o que se torna algo bastante irônico, já que hoje em dia, móveis desse mesmo tipo são bastante caros e descritos até mesmo como “móveis de coleção”. Toda essa questão, por fim, reflete o modo como o design e os projetos são – e foram – vistos antigamente e hoje em dia e como as vanguardas influenciaram, ainda que pouco, de certa forma, para que isso ocorresse.
Referências bibliográficas:
CARDOSO, Rafael Denis; Uma Introdução à História do Design, 2000 – São Paulo, Edgard Bluthcer, 2000.
PEREZ, L. C. A. Vanguardas europeias. Mundo Educação. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/vanguardas-europeias/. Acesso em: 23 de novembro de 2019.
AIDAR, Laura. Vanguardas europeias. Toda Matéria. Disponível em: https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/literatura/vanguardas-europeias.htm. Acesso em: 23 de novembro de 2019.
Texto desenvolvido por Eduardo Vinícius Araújo Santos para a disciplina Introdução ao Estudo do Design – Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Departamento de Artes – Bacharelado em Design – Novembro de 2019. O texto colabora com o projeto de extensão “Blog Estudos sobre Design”, coordenado pelo Prof. Rodrigo N. Boufleur (http://estudossobredesign.blogspot.com).